terça-feira, 4 de abril de 2017

FILOSOFIA: OPINIÃO E CONCEITO

OPINIÃO E CONCEITO

Sócrates, filósofo grego da Antiguidade, instituiu um método para a construção do saber, ou seja, o diálogo. O diálogo socrático realizava-se sob dois momentos distintos: a ironia e a maiêutica. Na ironia procurava confundir o interlocutor a respeito do que este julgava saber; na maiêutica instruía sobre o que ele poderia aprender. As perguntas que Sócrates fazia tinha por objetivo aprofundar o tema em questão. Dizia que nada sabia, e por isso perguntava a quem ele julgava que soubesse.
Para Sócrates as opiniões devem ser destruídas. De acordo com o pensamento deste filósofo, o indivíduo, movido pela sensação, vai adquirindo conhecimentos falsos e incorporando muitos vícios ao seu patrimônio intelectual. Acha ele que esses pseudoconhecimentos são adventícios, e, que uma reflexão mais cuidadosa sobre eles fará o indivíduo mudar de parecer, motivando-o na busca do conceito.
Após confundir o interlocutor sobre aquilo que ele julgava saber (opinião), Sócrates partia para a construção do conceito. O conceito era o resultado das perguntas que ele fazia com o objetivo de aprofundar o tema em questão. Penetrava no âmago do problema, sem contudo ter a pretensão de descobrir a verdade total. Pelo contrário, indo até às últimas consequências, deixava sempre um campo aberto para posteriores pesquisas.
O método socrático, como vemos, é o de perguntar. A avaliação pedagógica atual está muito mais interessada nas respostas do que nas perguntas dos alunos. Aliás, a maioria dos testes psicotécnicos medem a capacidade de responder; poucos, a de perguntar. Por isso, diz-se que as pessoas deveriam ser avaliadas pelas perguntas que fazem, e não somente pelas respostas que dão. É que as perguntas revelam o caráter espontâneo do indivíduo, enquanto a resposta aquilo que ele tira do livro.
A apreensão do conceito, sendo racional, deveria encaminhar o indivíduo para a prática da virtude, pois a razão não pode conceber a Verdade à parte do bem. Conceber as pessoas dentro da totalidade, imaginando-as como parte integrante de uma população cósmica e espiritual, é de suma importância para a ampliação de nossa visão com relação ao "eu", ao "outro" e ao "nós".

Renunciemos às nossas opiniões particulares. Posteriormente, procuremos descobrir o conceito que se oculta por trás das coisas sensíveis. Esta é a regra áurea para bem conduzir o nosso pensamento na busca da verdade.

SENSO COMUM E A FILOSOFIA

SENSO COMUM

O senso comum possui uma importância enorme na história dos problemas filosóficos, s Na história da filosofia, o problema do senso comum sempre foi um ponto de enorme importância e grandes debates. Os filósofos clássicos, como Sócrates, Platão e Aristóteles, dedicaram-se a refletir sobre isso e situar esse tema dentro dos problemas que interessam à reflexão filosófica.
Grosso modo, o sentido mais profundo da expressão “senso comum” remete ao tipo de experiência que é propriamente humana, isto é, a experiência do sofrimento ou a experiência tradicional. Um dos elementos que tornam o homem diferente das outras criaturas é a sua capacidade de refletir sobre o sofrimento, de saber que vai morrer, que pode ser acometido por catástrofes, doenças, etc. A experiencia tradicional nos dá os elementos para a compreensão de nossa condição de seres falíveis. As tragédias antigas (tão valorizadas por Aristóteles) davam conta dessa experiência. A literatura moderna e contemporânea também o faz.
Sendo assim, o senso comum é o tipo de saber que busca fornecer orientação ao homem e não deixá-lo repetir os erros do passado. Por intermédio da experiência, o homem pode exercer virtudes, como a prudência e a paciência, e aprender a não se deixar levar por aventuras emocionais, que o desviam para a irracionalidade, bem como não se deixar levar por “sonhos racionais” de progresso a qualquer custo. Como disse o pintor espanhol Goya, “O sonho da razão produz monstros”.
O conceito de senso comum sofreu certa desvalorização após o período do Renascimento. O humanismo renascentista foi a última corrente de reflexão que levava em conta o potencial orientador do senso comum. A partir do século XVII, sobretudo com o desenvolvimento da ciência moderna e da filosofia racionalista cartesiana, o senso comum passou, de forma geral, a ser identificado como “falta de rigor metodológico” e a ser rivalizado com o “senso crítico” ou “senso científico”. Dessa forma, até o início do século XX, eram poucas as defesas filosóficas que se faziam do senso comum, haja vista que a expressão havia sido alijada de seu sentido tradicional.

Os filósofos ligados à fenomenologia e à hermenêutica do século XX, como Heidegger e Gadamer, passaram a refletir novamente sobre o senso comum, colocando-o diante do problema da historicidade, isto é, da experiência histórica humana. Autores de outras tradições, como o católico leigo G. K. Chesterton, também passaram a fazer, ao seu modo, a defesa do senso comum, sobretudo recuperando o seu sentido tradicional.obretudo por estar associado à experiência tradicional.

FILOSOFIA GREGA - PERÍODOS

FILOSOFIA GREGA

A Filosofia tem lugar de nascimento, a Grécia, e um “pai”, Tales de Mileto. A Filosofia grega surgiu a partir da poesia, da religião e das condições sociopolíticas.
A Filosofia, como conhecemos hoje, ou seja, no sentido de um conhecimento racional e sistemático, foi uma atividade que, segundo se defende na história da filosofia, iniciou na Grécia Antiga formada por um conjunto de cidades-Estado (pólis) independentes. Isso significa que a sociedade grega reunia características favoráveis a essa forma de expressão pautada por uma investigação racional. Essas características eram: poesia, religião e condições sociopolíticas.

COSTUMA-SE DIVIDIR A FILOSOFIA GREGA EM QUATRO PERÍODOS:

a) PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICO – do século VII ao século V a.C. Caracterizado pela investigação acerca da physis e pelo início de uma forma de argumentar e expor as ideias;
b) PERÍODO SOCRÁTICO – do final do século V ao século IV a.C. Caracterizado pela investigação centrada no homem, sua atividade política, suas técnicas, sua ética. Também considerado o apogeu da filosofia grega;
c) PERÍODO PÓS-SOCRÁTICO – do século IV ao século III a.C. Caracterizado pela tentativa de apresentar um pensamento unificado a partir de diversas teorias do passado. Interessava em fazer a distinção entre aquilo que poderia ser objeto do pensamento filosófico.
d) PERÍODO HELENÍSTICO OU GRECO-ROMANO – do século III a.C. ao século VI d.C. Engloba o período do Império Romano e dos Padres da Igreja. Trata-se das relações entre o homem, a natureza e Deus.

POESIA GREGA

Os poetas gregos, como Homero, desempenhavam papel bastante importante na educação dos jovens gregos. Os poemas homéricos continham características que serviriam de base para o desenvolvimento da filosofia. A principal delas é a busca pelas causas dos acontecimentos narrados, procurando uma narrativa que contemplasse a realidade da forma mais completa possível.
Outro poeta grego, Hesíodo, tem grande importância para o pensamento grego por ter narrado o nascimento dos deuses, uma forma de tentar explicar a origem do universo, tema que apareceria no primeiro filósofo, Tales de Mileto. A Teogonia de Hesíodo faz coincidir os deuses com fenômenos da natureza e partes do universo, que teria sido originado a partir de Caos, o primeiro deus a se gerar.
Além disso, temos dois temas que aparecem nos poetas que marcarão o início da filosofia grega: a noção de justiça como valor supremo e o conceito de limite, que Aristóteles desenvolveria como a noção de “justa medida”.

RELIGIÃO

Havia duas expressões da religião grega: a religião pública, aquela que conhecemos pelos poemas de Homero e a religião dos mistérios, praticada em círculos restritos por aqueles que não consideravam suficiente a religião pública.
Dentre os “mistérios”, aquele que mais importa para o nascimento da filosofia grega é o Orfismo, nome derivado de seu fundador, o poeta trácio Orfeu. O Orfismo inaugura uma concepção da existência humana distante do naturalismo: enquanto a religião pública considerava o homem mortal, o Orfismo opõe corpo e alma, sendo que o corpo seria mortal, mas não a alma. Do Orfismo são tributárias as filosofias de Pitágoras, Heráclito, Empédocles e Platão.
Outro aspecto importante da religião grega era a inexistência de um livro sagrado. As crenças eram difundidas pelos poetas, mas com uma visão não dogmática e sem uma autoridade que teria o direito de proteger os dogmas. Com isso, os filósofos gregos não enfrentaram resistência religiosa à sua liberdade de pensamento.

CONDIÇÕES SOCIOPOLÍTICAS

Antes de existirem as polis, a sociedade grega se agrupava em comunidades compostas por pessoas com um antepassado em comum, comunidades chamadas de genos. O poder de decisão era concentrado na figura do mais velho do grupo, o pater. Com o aumento do número de pessoas em relação à quantidade de terras produtivas, iniciaram-se conflitos e, depois de um extenso desenrolar histórico, surgiu a noção de propriedade privada: para resolverem os conflitos no interior dos genos, decidiu-se dividir as terras. Essa decisão, no entanto, foi baseada no critério mais forte para eles, o grau de parentesco. Assim, a proximidade sanguínea com o patriarca determinou tanto aqueles que se tornaram grandes proprietários, tanto aqueles que ficaram sem terras e se tornaram escravos ou artesãos.
Formaram-se assim as fratrias, pelo reagrupamento dos genos, e a organização das fratrias, deu origem às tribos. As tribos eram independentes e, por isso, podiam combater entre si. Entre as tribos que conhecemos, destacaram-se os aqueus, os eólios, os dórios e os jônios. Então, a Grécia Antiga não era formada por um Estado único e quando falamos “os gregos”, não falamos sobre um único povo. Aos poucos, cada tribo fundou uma cidade-Estado, ou seja, uma polis, no ponto mais alto da região onde se situavam.
Muitos aqueus se instalaram em ilhas e em costas da Ásia Menor; os jônicos fundaram cidades como Mileto e Éfeso. Por conta das condições geográficas, eles desenvolveram atividades econômicas voltadas para a navegação, comércio e artesanato. A adoção do regime monetário fortaleceu aqueles que viviam dessas atividades e se afastaram da organização social micênica que tinha seu fundamento na aristocracia de sangue.
A partir do século VII a.C., os homens e as mulheres não se satisfazem mais com uma explicação mítica da realidade. O processo de transformação e de criação envolvido no desenvolvimento de técnicas leva ao questionamento a respeito do universo, se ele também não respondia a um processo semelhante.
É em Mileto, situado na Jônia (atual Turquia), litoral ocidental da Ásia Menor que as perguntas a respeito da natureza exterior do mundo se desvincularam da mitologia. Os dados da experiência sensível (frio, quente, pesado, leve, por exemplo) passaram a ser explicados de uma forma racional. Eram entendidos também como realidades em si – por isso se falava em “O quente”, “o frio”, “o pesado”, “o leve”.
Por meio desse exercício do pensamento, os filósofos pretendiam analisá-los em relação ao todo, pois a razão parecia exigir uma unidade no lugar da multiplicidade que até então não havia sido problematizada.
Os principais pensadores da escola de Mileto (ou também “escola jônica” ou “milesiana”) são Tales, considerado o pai da filosofia, Anaximandro e Anaxímenes. Os pensadores dessa escola se caracterizam pela preocupação com a physis, palavra grega que pode ter o sentido de “natureza ou fonte originária”, mas também de “processo de surgimento e de desenvolvimento”.

Importante notar que nessa época não havia uma clara distinção entre as áreas do saber como temos hoje – ciência, religião, filosofia e matemática, por exemplo. Por esse motivo, muitos dos filósofos pré-socráticos podiam ser também líderes religiosos, cientistas, médicos ou matemáticos.

A FILOSOFIA GREGA e A ESCOLA SOCRÁTICA

A FILOSOFIA GREGA

 Os gregos deram contribuições importantíssimas à cultura ocidental, com a criação do teatro (comédia e tragédia), na Matemática, História, Medicina e Artes Plásticas. Todas estas realizações, porém, foram orientadas pela Filosofia.
 A Filosofia, que significa amor à sabedoria, nasceu na Grécia Antiga. Alguns pensadores, a partir do século VI a.C., com esforço pessoal, intelectual e intuitivo chegaram a conclusões sobre a natureza humana e sobre o universo, que permanecem até hoje.
 A filosofia surgiu no período Arcaico com a Escola de Mileto, da qual destacaram-se Tales, Anaxímenes e Anaximandro. Na concepção dessa escola, tudo na natureza descendia de um elemento básico (água, ar ou matéria).
 Tales de Mileto e Pitágoras foram filósofos matemáticos, seus teoremas são utilizados até hoje.
 No século V a.C., surgiram os sofistas, estes se dedicavam à crítica às tradições do Estado, à religião, aos privilégios, e eram defensores da democracia.
 Esses pensadores tinham no homem o alvo de suas preocupações, recriminando os que simplesmente especulavam sobre o universo. Dizia Protágoras, "o homem é a medida de todas as coisas". Os sofistas não acreditavam em verdades absolutas, em sua opinião, havia visões diferentes sobre o mundo e as coisas.

A ESCOLA SOCRÁTICA

 No final do século V a.C., filosofia e ciência começaram a se separar, e a filosofia passou a ocupar-se, principalmente, do homem e da ética humana. Surgiu a Escola Socrática, inspirada no pensamento de Sócrates.
 Sócrates: educador, mais preocupado em conhecer o indivíduo do que os segredos do Universo. Criador da célebre frase: "só sei que nada sei".
 Acreditava que o aprimoramento humano viria com a educação, baseada no uso crítico da razão.
 Dizendo a verdade e tornando público o que pensava, foi acusado de corromper a juventude e renegar os deuses. Foi condenado a beber cicuta (veneno mortal).
 Platão: discípulo de Sócrates, também se preocupou com a formação moral do indivíduo. Pregava que a moral individual deveria ser acompanhada de reforma na sociedade. Afirmava existir um mundo superior das idéias, que seria perfeito. 
 Escreveu várias obras, destacando-se a República, na qual explicava as regras para um Estado perfeito. Era contrário à democracia, pois, segundo ele, o homem comum era despreparado para o governo e incapaz de tomar decisões políticas inteligentes.
 Aristóteles: principal discípulo de Platão, é considerado o filósofo grego que mais influenciou o Ocidente. Deixou trabalhos preciosos nas áreas da Física, Biologia, Astronomia e Política.

 No plano social, Aristóteles defendia o escravismo, afirmando que alguns indivíduos nasceram para ser escravos e outros não.

quinta-feira, 9 de março de 2017

7.2. A REFLEXÃO FILOSÓFICA

A REFLEXÃO FILOSÓFICA
Chaui, Marilena.

Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo.
A reflexão filosófica é radical por que é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível o próprio pensamento.
Não somos SOMENTE seres pensantes. Somos seres que AGEM no mundo, que se relacionam (outros humanos, animais, plantas, coisas, fatos e acontecimentos); e exprimimos essas relações tanto pela linguagem como por atitudes.
A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade que nos rodeia em nosso dia-a-dia em nossas falas e ações que são realizadas através destas relações.
A reflexão filosófica busca responder a três grandes grupos de perguntas:

Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos?                      Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos?

O que queremos pensar quando pensamos, que queremos dizer o que dizemos, o que queremos fazer quando agimos?   Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?

Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos?  Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?

Essas três questões podem ser resumidas em:
O que é pensar, falar e agir?
Estas três perguntas pressupõem a seguinte pergunta: Nossas crenças cotidianas sou ou não um saber verdadeiro, um conhecimento?
Como vimos na postagem anterior, a atitude filosófica inicia-se indagando:
O que é? Como é? Por que é?
Estas perguntas se dirigem ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vive e com ele se relacionam. Estas perguntas refletem a essência, a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas.
Na Reflexão Filosófica se indaga:
Por que? O que? Para que?
Dirigindo-se ao pensamento, aos seres humanos no ato da reflexão. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.

Referência bibliográfica:

Chaui M. Filosofia. 1.a Ed. 12.a impressão. Ed Atica. 2007. 232 p.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

4. O PENSAMENTO MÍTICO E O PENSAMENTO LÓGICO

O PENSAMENTO MÍTICO E O PENSAMENTO LÓGICO

A tradição filosófica, sobretudo a partir do século XVIII (com a Filosofia da Ilustração) e do século XIX (com a Filosofia da história de Hegel e o positivismo de Augusto Comte), afirmava que do mito à lógica havia uma evolução do espírito humano, isso é, o mito era uma fase ou etapa do espírito humano e da civilização que antecedia o advento da lógica ou do pensamento lógico, considerado a etapa posterior e evoluída do pensamento e da civilização. Essa tradição filosófica faz crer que o mito pertenceria a culturas “inferiores”, “primitivas” ou “atrasadas”, enquanto o pensamento lógico ou racional pertenceria a culturas “superiores”, “civilizadas” e “adiantadas”.
Essa separação temporal e evolutiva de duas modalidades de pensamento fazia com que se julgasse a presença, em nossas sociedades, de explicações míticas (isto é, as religiões, a literatura, as artes) como uma espécie de “resíduo” ou “resto” de uma fase passada da evolução da humanidade, destinada a desaparecer com a plena evolução da racionalidade científica e filosófica.
Hoje, porém, sabe-se que a concepção evolutiva está equivocada e que o pensamento conceitual e o pensamento mítico podem coexistir numa mesma sociedade. Estudos de antropologia social, que estuda os mitos das sociedades ditas selvagens e também as mitologias de nossas sociedades, ditas civilizadas, mostraram que, no caso de nossas sociedades, a presença simultânea do pensamento conceitual e do pensamento mítico decorre do modo como a imaginação social transforma em mito aquilo que o pensamento conceitual elabora nas ciências e na Filosofia. Basta ver o caráter mágico-maravilhoso dado aos satélites, aos autômatos, aos computadores para constatarmos a passagem da ciência ao mito.
No entanto, estudos de neurologia e da análise da anatomia e da fisiologia do cérebro humano mostram que esse órgão possui duas partes, ou dois hemisférios; em um deles localiza-se a linguagem e o pensamento simbólicos e afetivos (propensos ao maravilhoso e à imaginação criadora) e, no outro, a linguagem e o pensamento conceituais. Certas pessoas, como os artistas, desenvolvem mais o hemisfério simbólico e afetivo, enquanto outras, como os cientistas, desenvolvem mais o hemisfério conceitual e lógico.
Assim, a predominância de uma ou de outra forma de pensamento depende, de um lado, das tendências pessoais e da história de vida dos indivíduos e, de outro, do modo como uma sociedade ou uma cultura recorrem mais a uma do que à outra forma para interpretar a realidade, intervir e explicar-se a si mesma.

Marilena Chaui

6. O CONCEITO DE FILOSOFIA

O CONCEITO DE FILOSOFIA

A palavra Filosofia é composta de duas outras palavras de origem grega: Filos, que significa amor, amizade, e Sofia, que traduzimos como sabedoria ou conhecimento. É a Pitágoras de Samos (571 a.C. – 496 a.C.) que se atribui a invenção da palavra. Este, quando solicitado por um rei a demonstrar seu saber, disse-lhe que não era sábio, mas Filósofo, ou seja, amigo da sabedoria.
Ainda na Grécia Antiga, e tentando definir melhor o sentido da Filosofia, Platão (428 a.C. – 347 a.C.) mostra que o amor (Filos) é carência, desejo de algo que não se tem. Logo, a Filosofia é carência, mas também recursos para buscar o que se precisa, e o filósofo não é aquele que possui o saber, mas sim quem busca conhecer continuamente.

Já no período Medieval, a Filosofia tornou-se investigação racional posta a serviço da fé. Isso porque com o advento do cristianismo e sua adoção pelo Império Romano, bem como com o surgimento da Igreja Católica, desenvolveu-se um modelo de saber em que a razão discursiva justificaria a compreensão dos textos sagrados.
No período Clássico (Renascença e Modernidade), a Filosofia se confundiu com o estudo da sabedoria entendida como um perfeito conhecimento de tudo o que o homem pode saber para conduzir sua vida (moral), para conservar sua saúde (medicina) e criar todas as artes (mecânica). Hoje, no período que chamamos de contemporâneo ou pós-moderno, a Filosofia recebe várias acepções, dentre as quais estão:

- Uma correspondência do ser na linguagem;

- Análise crítica dos métodos utilizados nas ciências;

- Instrumento de crítica às formas dominantes de poder, bem como da tomada de conscientização do homem inserido no mundo do trabalho.

Vista dessa maneira, a Filosofia não pode ser confundida nem com o mito, nem com a ciência. Isso porque ao mesmo tempo em que exige análise, crítica, clareza, rigor, objetividade (como a ciência) percebe-se que os discursos em busca do conhecimento do todo são construídos na história segundo modelos de racionalidade que vão sendo revisados e substituídos com o tempo (o que a aproxima do mito). Ela permanece numa busca constante da sabedoria.

Por João Francisco P. Cabral
Colaborador Brasil Escola
Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

FONTE: http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/a-filosofia-grega.htm